O curta-metragem A Curva do Rio, do diretor goiano Kassio Pires, teve sua estreia internacional na última semana, em Madagascar, no 20º Madagascourt Film Festival.
Realizado com recursos da Lei Paulo Gustavo, mecanismo operacionalizado pela Secretaria de Estado da Cultura (Secult Goiás), o filme integrou a mostra À Chacun Son Cinéma, dedicada a obras autorais voltadas a identidades, territórios e linguagens singulares no cinema contemporâneo.
Curta goiano A Curva do Rio
A Curva do Rio acompanha dois personagens centrais: Anair e o Rio Paranaíba, que conduz a história buscando entender por que a mulher de 60 anos que vive às suas margens tem tanto medo de suas profundezas. Anair, que é avó de Kassio, representa o processo de retorno e reencontro com as raízes que permeiam a narrativa. O rio, por sua vez, age como metáfora para esse referencial de pertencimento, conforme explica o diretor e roteirista Kassio Pires.
“O filme entra na questão dos jovens que saem do interior e de alguma forma se sentem desterrados”, diz.
Esses jovens, ao voltar para a cidade natal e para os que vivem ali, encontram uma identidade um pouco modificada, mas ainda enraizada no passado.
“Porque é isso, né? A gente nunca deixa de ser caipira. É isso que a Anair do filme quer nos dizer”, aponta.
Por meio de um movimento que Kassio costuma chamar de neocaipirismo, a produção explora a construção da identidade do interior do Brasil a partir de um olhar nativo e oposto a estereótipos.
“O audiovisual brasileiro tem olhado muito para Goiás, mas é um olhar estrangeiro. Por mais que seja um olhar brasileiro, não são produções realizadas e pensadas por pessoas daqui, então esse movimento do neocaipirismo vem no sentido de buscarmos a nossa linguagem, explorando esse cotidiano, essa pluralidade, para mostrar que a identidade goiana e do Brasil Central, do Centro-Oeste e do Cerrado, é muito mais complexa do que o estereótipo do caipira”, explica.
20º Madagascourt Film Festival
A seleção para o 20º Madagascourt Film Festival, realizado em Antananarivo, surpreendeu o diretor, que não imaginava que um filme de linguagem tão regional pudesse alcançar um festival africano. Para ele, a experiência revelou aproximações inesperadas.
Ao chegar ao país, Kassio percebeu que as semelhanças geográficas e culturais entre Goiás e Madagascar, a exemplo da presença marcante da terra vermelha, os planaltos, o céu aberto e a forte miscigenação do povo malgaxe, criaram pontos de identificação que atravessam continentes.
“Foi quando entendi que, mesmo sendo um filme muito específico, ele dialoga com questões identitárias que são universais. Estar lá foi quase uma confirmação da própria tese do filme: a identidade é muito mais complexa e conectada do que a gente imagina”, reflete.
Sobre o lançamento do filme no Brasil, o cineasta revela que ainda não há uma previsão porque a prioridade foi a participação em festivais.
“Estamos tentando fazer uma boa estreia, então ainda estamos esperando algumas respostas, mas a expectativa é de que, se possível, ainda neste primeiro semestre a gente tenha alguma estreia confirmada no Brasil e o quanto antes em Goiás”.