O Hospital Estadual Dr. Alberto Rassi (HGG) recebeu, na última quarta-feira (25/03), o médico da Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen), Carlos Eduardo Brandão. O profissional, que atuou diretamente no atendimento às vítimas do maior acidente radiológico do Brasil, ministrou a palestra Atendimento médico realizado pela Cnem durante o acidente com o Césio-137.
A iniciativa foi realizada em parceria com a Secretaria de Estado da Saúde de Goiás (SES-GO), por meio do Centro Estadual de Assistência aos Radioacidentados Leide das Neves (Cara), e reuniu profissionais de saúde, autoridades e convidados no auditório da unidade de saúde do Governo de Goiás.
Referência no atendimento às vítimas à época do acidente, o HGG teve papel fundamental na assistência aos pacientes mais graves, que foram transferidos para a unidade após os primeiros atendimentos emergenciais.
O hospital estruturou uma ala específica para isolamento e cuidado especializado, em um cenário desafiador e ainda pouco conhecido pela medicina brasileira.
Durante a palestra, Carlos Eduardo relembrou o impacto de chegar a Goiânia em 1987 para atuar em uma situação inédita.
“Era um misto de surpresa, impotência e desafio. Estávamos diante de algo completamente novo, com pacientes altamente contaminados e decisões que precisavam ser tomadas rapidamente”, destacou.
Evolução
Ele também ressaltou a evolução do atendimento e a resposta dada à época.
“Tivemos capacidade de atender as vítimas da melhor forma possível, dentro das condições que tínhamos. Hoje, quase 40 anos depois, ver que muitos estão bem traz uma sensação de dever cumprido”, afirmou.
Ao final do evento, o médico percorreu os corredores do HGG e se emocionou ao relembrar o período em que atuou na unidade. Ele destacou a transformação estrutural do hospital ao longo das décadas.
“É um hospital completamente diferente. Tive dificuldade até de reconhecer o local onde trabalhei. Hoje, a estrutura se equipara aos melhores hospitais privados do país. É algo realmente impressionante”, elogiou.
Outro destaque do evento foi a participação do físico nuclear Walter Mendes Ferreira, responsável por identificar o acidente em 1987 e atualmente chefe da Divisão de Emergências Radiológicas da Cnen, no Rio de Janeiro. Ele relembrou o momento da descoberta e a mobilização que se seguiu.
“Foi uma operação de guerra. A partir da identificação do material radioativo, toda a estrutura foi acionada para conter o acidente e atender as vítimas”, explicou.
Walter também enfatizou o impacto social do episódio.
“Naquele momento, havia muito medo e desinformação. As pessoas acreditavam que todos estavam contaminados, o que não era verdade. Foi um período extremamente desafiador”, destacou.
Cuidado contínuo com as vítimas
Representando a SES-GO, a superintendente de Políticas e Atenção Integral à Saúde, Amanda Limongi, destacou a importância da memória e do cuidado contínuo com as vítimas.
“Esse é um episódio que carrega cicatrizes profundas, físicas, emocionais e sociais. Ele nos convoca permanentemente à responsabilidade, à vigilância e ao cuidado, para que nunca seja esquecido.”
Ela também ressaltou as ações desenvolvidas pelo Cara, que mantém o acompanhamento das vítimas e promove iniciativas de educação e preservação da memória histórica do acidente.
Durante a programação, a SES-GO, por meio do Cara, prestou homenagem ao dr. Carlos Eduardo Brandão e ao HGG, em reconhecimento à atuação decisiva no enfrentamento do acidente. O subdiretor técnico de Terapia Intensiva e Cuidados Paliativos do HGG, Joan Castro, enfatizou o legado deixado pelo episódio para a prática em saúde.
“O hospital não é feito apenas de paredes, mas de histórias. Esse momento reforça a importância de aprendermos com o passado para estarmos preparados para desafios futuros”, pontuou.
Acidente com o Césio-137
O acidente radiológico com o césio-137 foi um grave episódio de contaminação por radioatividade ocorrido em Goiânia. A contaminação teve início em 13 de setembro de 1987, quando um aparelho utilizado em radioterapias foi encontrado dentro de uma clínica abandonada, no centro da capital.
Foi classificado como nível 5 (acidentes com consequências de longo alcance) na Escala Internacional de Acidentes Nucleares, que vai de zero a sete, em que o menor valor corresponde a um desvio, sem significação para segurança, enquanto no outro extremo estão localizados os acidentes graves
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