Na unidade de Polícia Penal Regional Feminina da 6ª CRP, em Rio Verde, reeducandas estão participando do Projeto Resgatar, com a realização de workshops voltados ao desenvolvimento socioemocional, empregabilidade e empreendedorismo.
O Programa Resgatar é fruto de uma parceria entre Senai Goiás, IEL Goiás, Ministério Público do Trabalho (MPT/GO) e Tribunal de Justiça (TJ/GO), além da Diretoria-Geral da Polícia Penal.
Nesta semana, as ações foram de quarta a sexta-feira (6, 7 e 8 de maio), realizadas pelo Instituto Euvaldo Lodi (IEL Goiás). As atividades têm como objetivo orientar as participantes sobre inserção no mercado de trabalho, rompimento do ciclo de exclusão social e construção de novas perspectivas profissionais após o cumprimento da pena.
No dia 7, as internas participaram de palestra promovida pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae/GO), com foco em educação financeira e empreendedorismo. Segundo o presidente da Federação das Indústrias do Estado de Goiás, André Rocha:
“Não estamos apenas ensinando um ofício, estamos oferecendo dignidade e oportunidade de recomeço. Projetos como esse mostram que é possível transformar realidades e fortalecer toda a sociedade”.
Ele refere-se ao trabalho conjunto entre Senai, que capacitou as detentas em costura industrial e IEL, que as prepara social e psicologicamente para o mercado de trabalho quando obtiverem liberdade.

O superintendente do IEL Goiás, Humberto Oliveira, destacou que a iniciativa amplia o alcance da ressocialização por meio do trabalho e do fortalecimento emocional.
“O projeto vai além da qualificação técnica. Ele promove autoestima, resgata perspectivas e cria caminhos reais para que essas reeducandas possam reconstruir suas trajetórias com autonomia”, ressaltou.
Paula Lemes da Costa, da 6ª Coordenação Regional de Polícia Penal (CRP), enfatizou que o programa representa um divisor de águas dentro do sistema prisional goiano.
“O objetivo vai além de proporcionar qualificação profissional, mas também de inserção no mercado de trabalho, porque não basta qualificar. É preciso preparar emocionalmente e criar oportunidades reais para que elas não retornem ao sistema prisional. O IEL entra justamente com essa parte da reinserção”, afirmou Paula.
Segundo ela, o trabalho desenvolvido pelo IEL é fundamental para combater o estigma carregado pelas detentas.
“Existe o preconceito da sociedade, mas existe também o preconceito delas consigo mesmas. Trabalhar o desenvolvimento emocional é essencial para que elas entendam que podem ter uma nova vida. Tenho certeza de que a gente está iniciando isso aqui e teremos bom bons frutos para ser replicado em todas as unidades da regional. Estou muito esperançosa que vai dar certo isso dará um resultado”, destacou.
Já a diretora da Unidade de Polícia Penal Regional Feminina da 6ª CRP, Márcia Maria Tavares de Oliveira, afirmou que a atuação do IEL representa a transformação da teoria em prática.
“Esse processo que o IEL está trazendo é o que realmente vai fazer a diferença. Não é apenas ensinar uma profissão, mas trabalhar também a inserção no mercado e preparar o próprio mercado para recebê-las. Isso muda vidas e representa uma verdadeira segunda chance”, afirmou.
Márcia também destacou o interesse crescente das internas pelos cursos de qualificação. “Hoje, se tivéssemos mais vagas, praticamente todas as internas iriam querer participar. Elas estão abraçando a oportunidade”, disse.
Resgatar

O Programa Resgatar é uma iniciativa estruturada para promover qualificação profissional e desenvolvimento socioemocional de pessoas privadas de liberdade. A proposta conecta o sistema de justiça, instituições de ensino e o setor produtivo, criando oportunidades concretas de emprego e geração de renda.
Com execução prevista até 2027, o projeto terá 40 turmas distribuídas em 17 municípios goianos, beneficiando diretamente 1.050 reeducandos. Com investimentos na casa dos R$ 4 milhões, o projeto busca romper o ciclo de exclusão social, oferecendo formação em áreas com demanda no mercado, como construção civil, eletricidade e costura industrial.
Além da capacitação técnica, oferecida pelo Senai Goiás, a iniciativa contribui para a melhoria do comportamento dos reeducandos, redução da ociosidade e fortalecimento da cidadania. O IEL Goiás trabalha o desenvolvimento socioemocional e comportamental dos participantes, promovendo oportunidades de transformação e reintegração social.
A iniciativa teve início em Aparecida de Goiânia, em 2024, e em 2026 foi expandida para outras regionais do Estado, incluindo Rio Verde, Jataí, Quirinópolis, Mineiros, Itauçu e Inhumas.
Esperança de recomeço
As participantes do Projeto Resgatar relataram sentimentos de acolhimento, valorização e esperança após o início das atividades promovidas pelo IEL Goiás dentro da Unidade Prisional Regional Feminina de Rio Verde.
A reeducanda A.L., de 34 anos, afirmou que o projeto abriu novas perspectivas para sua vida.
“Abriu novos horizontes para mim. Às vezes, a gente entra aqui com a mente fechada, mas quando aparecem oportunidades assim, a gente absorve conhecimento e tenta levar isso para fora. Hoje, eu já penso em trabalhar, abrir meu próprio negócio e construir uma nova história”, relatou.
Ela destacou ainda o impacto emocional do acolhimento recebido durante os workshops.
“Acreditar que existem pessoas importantes que acreditam na gente muda muita coisa. Isso faz a gente deixar preconceitos que tínhamos contra nós mesmas e procurar oportunidades com a cabeça mais erguida”, disse a detenta.
Outra participante, L.X, de 45 anos, disse que a experiência representa uma oportunidade concreta de recomeço.
“A gente sai daqui quase sem oportunidades lá fora. Então, não é só pela profissão, mas pela melhoria dos pensamentos e do psicológico também. Aqui na sala de aula a gente não se sente no cárcere. A gente se sente mais livre”, declarou.
L.X. afirmou que pretende utilizar o conhecimento adquirido para abrir o próprio negócio e incentivar outras mulheres da família.
“Hoje eu vejo uma oportunidade de um grande recomeço. Quero continuar me aperfeiçoando lá fora e usar isso para mudar minha vida”, afirmou.
As duas reeducandas também ressaltaram a importância da atuação conjunta do Senai, do IEL Goiás e da Polícia Penal na construção de novas oportunidades. Para elas, o projeto representa mais do que capacitação profissional.
“O Resgatar simboliza reconhecimento, dignidade e a possibilidade concreta de reconstrução social para nós”, disse A.L.
Empregabilidade, comportamento e reconstrução
Os workshops promovidos pelo IEL Goiás dentro do Projeto Resgatar, na Unidade Prisional Regional Feminina de Rio Verde, foram conduzidos pela psicóloga e neuropsicóloga Lídia Lemes e pelo especialista em desenvolvimento humano, Marcus Coimbra.
As atividades trabalham temas ligados ao comportamento profissional, autoconhecimento e projeto de vida, empregabilidade e mercado de trabalho, preparação para processos seletivos e competências socioemocionais.
“O projeto é uma iniciativa de suma importância tanto para as reeducandas quanto para a sociedade em geral, uma vez que, quando programas como esse avançam, alcançamos mais pessoas em situações semelhantes e temos a chance de substituir a ‘condenação social perpétua’ pela orientação para a mudança”, afirmou Lídia Lemes, especialista em desenvolvimento infanto-juvenil, avaliação neuropsicológica e em prática baseada em evidências em psicologia.
Durante os encontros, Lídia conduziu atividades voltadas ao fortalecimento emocional e ao desenvolvimento da autoestima das participantes, promovendo reflexões sobre identidade, convivência, autoconhecimento e superação.
“Saí dessa etapa muito feliz com o que pudemos construir e ainda mais motivada a acreditar que a educação, independentemente do contexto, é o caminho para a transformação”, comemorou.
Para Marcus Coimbra, os encontros apresentam às reeducandas uma leitura atualizada do mercado de trabalho em Goiás, além de orientações práticas sobre competências técnicas e comportamentais valorizadas pelas empresas.
“Trabalhamos hard skills, soft skills, elaboração de currículo, postura em entrevistas e, principalmente, mostramos que existe uma possibilidade real de uma nova vida. O mercado tem vagas e valoriza comportamento, maturidade e vontade de fazer diferente”, destacou.
Marcus também ressaltou o impacto transformador do trabalho e da carreira na reconstrução pessoal.
“Quando estamos atuando profissionalmente, conquistamos liberdade, pertencimento social e autonomia financeira. Queremos que elas entendam que podem construir uma nova história”, afirmou.