Aos 95 anos, o médico patologista Jarbas Doles voltou a percorrer um lugar que faz parte de sua própria história. Décadas depois de trabalhar na antiga Colônia Santa Marta, em Goiânia, ele retornou à instituição onde ajudou a construir parte da trajetória da saúde pública em Goiás, em uma época marcada pelo isolamento compulsório e pelo preconceito contra pessoas com hanseníase.
A visita foi realizada no Hospital Estadual de Dermatologia Sanitária Colônia Santa Marta (HDS), onde o médico conheceu o Espaço de Memórias, dedicado à preservação da história da unidade. Fotografias, documentos e instrumentos ajudam a contar o passado da instituição, que passou por profundas transformações ao longo das décadas.
Pioneiro da medicina laboratorial em Goiás, Jarbas Doles atuou no laboratório e no dispensário da antiga colônia, contribuindo para o diagnóstico da hanseníase, doença então conhecida como lepra.
Natural de Cumari, no sudeste goiano, formou-se em Medicina pela Escola Paulista de Medicina, em 1955. Sua trajetória profissional foi marcada pela atuação na área laboratorial, pelo diagnóstico de doenças e pela formação médica.
Memórias de uma época marcada pelo preconceito
O período em que Jarbas trabalhou na Colônia Santa Marta foi marcado por grandes desafios para a medicina e para as pessoas atingidas pela hanseníase.
Na época, o isolamento compulsório afastava pacientes do convívio social. O preconceito também dificultava a aceitação dessas pessoas pela sociedade.
Nesse contexto, o trabalho desenvolvido nos laboratórios tinha papel importante na identificação da doença e na assistência aos pacientes.
Décadas depois, o retorno à antiga colônia permitiu ao médico revisitar essa história e refletir sobre a importância de preservar a memória de um período marcado por dificuldades e transformações na saúde pública.
“Naquela época, era muito difícil, pois o preconceito era dominante e a sociedade não aceitava as pessoas com hanseníase. Um acervo como o do HDS, além de preservar a história da unidade, ajuda as pessoas a compreender melhor a história da doença”, relata.
Jarbas Doles e a preservação da história da Colônia Santa Marta
O Espaço de Memórias do HDS reúne registros da trajetória da instituição e das pessoas que fizeram parte dela. O acervo permite conhecer tanto os avanços científicos e assistenciais quanto os desafios enfrentados por profissionais e pacientes.
A visita de Jarbas Doles acrescentou a esse patrimônio histórico o olhar de quem viveu parte dos acontecimentos retratados nos documentos e fotografias.
O médico, que antes frequentava os espaços da instituição para exercer suas atividades profissionais, retornou como testemunha de um período importante para a história da saúde em Goiás.
“Hoje, ver que a instituição estruturou um espaço dedicado à preservação dessa memória é gratificante. Isso contribui para combater o preconceito, porque a ignorância o alimenta”, afirma, ainda.
A preservação dessa história também permite compreender as mudanças na assistência às pessoas com hanseníase e a importância do conhecimento científico no enfrentamento do preconceito.
Para Jarbas Doles, o reencontro com a antiga Colônia Santa Marta representa mais do que uma visita ao local onde trabalhou. É também uma oportunidade de contribuir para que as novas gerações conheçam uma parte da história da medicina em Goiás por meio das experiências de quem participou dela.